Removendo Tatuagens de Gangue de Los Angeles

O prédio da Homeboy Industries, no centro de Los Angeles, é um espaço cheio de cômodos: uma padaria, uma loja, salas de aconselhamento, de treinamento profissional, de cursos educacionais, todo tipo de coisa – e tudo contido por paredes de vidro.

Mas o cômodo mais popular desse centro de reabilitação para ex-membros de gangue e ex-presidiários não é nenhum desses. Muitas das pessoas que chegam aqui vão direto a uma pequena sala de espera nos fundos. Passando por ela você vê duas portas: por trás delas é possível ouvir o barulho de estalo das máquinas de remoção de tatuagem.

“Colocio, Colocio”, balbucia o cara na mesa de recepção dessa sala, meio que para ele mesmo, com os olhos fixos na tela do computador. “Faz tempo que você não aparece por aqui.”

“Acho que uns quatro anos”, admite Luis Colocio, pegando um formulário antes de se sentar.

Era o quarto dia em que eu acompanhava Luis, que é segurança da Homeboy há três anos e meio e membro da organização há quase oito. Luis é um cara fácil de gostar. Ele mantém o cabelo, quase grisalho, penteado para trás com pomada Murray. Aos 38 anos, usa o tipo de conversa mansa que encantaria sua avó. Ele diz que prefere não se abrir muito com os outros – uma impressão bem diferente da primeira que tive dele, a de um cara com jeito de vendedor de carros, suave, imperturbável.

removendo tatuagens de gangue

Mas depois de um minuto sentado na sala de espera, gotas de suor começaram a brotar na testa do segurança. Ele enxugou o rosto com o braço, depois com a barra da camiseta. Em seguida, se levantou, andou pela sala, sentou de novo, levantou, saiu da sala, voltou, sentou outra vez e passou o braço pelo rosto de novo. Depois se levantou mais uma vez.

Eu tinha uma ideia do que estava à espera de Luis. Algumas semanas antes, conversei com Troy Clarke, médico assistente e um dos 30 especialistas em remoção de tatuagens voluntários da Homeboy. Clarke vem de Nova York uma vez por mês para trabalhar aqui.

“É como esticar e soltar um elástico de dinheiro no mesmo local 20 vezes por segundo”, Clarke explicou sobre o processo de remoção a laser de tatuagens. “As garotas lidam com a dor melhor que os caras. Elas têm um limite de dor mais alto, por razões óbvias.”

Os clientes da Homeboy precisam retirar qualquer tatuagem de filiação a gangues, além daquelas que podem atrapalhar na hora de arrumar um emprego no futuro, incluindo tatuagens no pescoço e abaixo do pulso, e qualquer uma relativa a qualquer ente querido. Há mais de 1.200 tatuagens diferentes de gangue em LA, me explicou  o médico assistente. Pode levar mais de um ano para remover se o desenho é de grande cobertura ou se tem cores. O mais importante, ele diz, é que o processo é simbólico.

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“É como um renascimento. As pessoas não podem manter essas tatuagens se pretendem seguir em frente com a vida”, afirmou Clarke, antes de listar alguns métodos caseiros de remoção de tatuagem. “Lixa, ácido. Às vezes eles queimam o local ou simplesmente cortam a tatuagem fora. Já vi de tudo. E quem sou eu pra julgar?”

Mas outros falam da sensação de traição que se tem ao remover uma tatuagem de gangue. Jorja Leap é professora de bem-estar social na UCLA (Universidade da Califórnia, Los Angeles). Nos últimos cinco anos, ela acompanhou o progresso de 300 clientes da Homeboy durante a passagem pelo programa. Leap explicou como os ex-membros de gangue precisam construir uma nova identidade “literalmente do nada”. Mas essa mudança frequentemente vem com uma sensação de deslealdade.

“A principal questão é a traição, e esse tipo de palavra nunca é mencionada. É um conceito difícil de aceitar. Alguns desses homens e mulheres sentem que estão traindo seu antigo estilo de vida ao entrar para o programa. E acho que isso frequentemente sustenta o atrito: ‘Não desrespeite meus irmãos, não desrespeite de onde vim’. E internamente, há uma sensação de traição quando eles retiram uma tatuagem: ‘Estou abrindo mão da minha vida antiga?’ Já me falaram: ‘No meu coração, sempre serei parte do meu antigo bairro’. É compreensível. Você luta para ir além disso – esses homens e mulheres, isso é a história deles. Eles querem deixar isso para trás, mas também sentem que estão traindo ao fazer isso, vendendo a pessoa antiga.”

Um paciente que ficou na minha cabeça naquele dia com Clarke foi um cara jovem, de menos de 26 anos, que estava lá para remover uma imagem de cabeça derretida da base da garganta. Ele se envolveu com uma gangue de neonazistas e começou a usar drogas. Sua mãe, uma senhorinha chorosa, temente a Deus, com um capacete de cabelos brancos, estava com ele para dar apoio. Ela disse na sala que ele tinha envergonhado a família (gente íntegra, segundo ela) com suas decisões, mas que agora estava tentando consertar isso – ele estava sóbrio há três meses e vivendo em casa novamente. Aquele jovem queria trabalhar no mercado de moda, já estava frequentando uma faculdade para isso. Ele foi muito educado, tinha um comportamento quase manso e se sentou imóvel durante todo o tratamento.

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Luis cresceu em Boyle Heights. Era um dos três filhos criados pela mãe solteira. “Era um lugar infestado de drogas. Era territorial, e se tornou mais territorial em 84, 85, quando apareceu o crack. Com isso vieram o poder e as mortes. Cresci vendo meus familiares viciados em crack e o estilo de vida deles, então aceitei que a vida era assim. Tínhamos as maiores taxas de assassinato de toda Los Angeles. E você ainda tinha a violência policial e tudo mais.”

“Aos 7 anos, minha mãe queimou minhas mãos no fogão a gás porque eu estava brincando com fósforos. Ela podia não ser o pai, mas tinha que dar estrutura e disciplina, e ela fazia o que podia sendo uma mulher sozinha, sempre trabalhando, voltando para casa e tendo que lidar com três crianças que tinham tanta energia.”

Luis recebeu crack do irmão para vender nas ruas quando fez 14 anos. “Ele me disse: ‘Não use, não brinque com isso. Isso é só para fazer dinheiro’.”

Tentando escapar das drogas e do crime em Boyle Heights e em LA, a mãe de Luis se mudou com a família para Sacramento. “Mas há drogas em qualquer cidade, então logo eu estava de volta às ruas.”

Aos 17 ele experimentou metanfetamina pela primeira vez. Logo depois, sua mãe o expulsou de casa. “Comecei a morar em casas abandonadas. Mas, quando era menino, sempre quis fazer parte de uma gangue. Eles eram sempre respeitados, como deuses.” O garoto voltou então para LA, para seu antigo bairro, onde se juntou ao East LA 13. “Lembro de pegar uma arma e querer sair para matar, ser reconhecido como parte dessa gangue.”

Depois de quase morrer numa briga entre gangues – “um dos caras puxou uma faca para mim, a lâmina ficou a centímetros de perfurar meu pulmão” –, ele passou dessa realidade para a das drogas. Luis se mudou para El Paso, Texas, onde “usava cocaína, vendia nas ruas, roubava correntes de ouro de garotas, fazia qualquer coisa para conseguir dinheiro”. Depois ele foi a Tucson, Arizona, roubou um carro, foi pego e cumpriu três anos de prisão. Quando saiu, ele conheceu sua esposa, então entrou para outra gangue.

“O vício continuava em mim. Eu era um viciado completo. Não conseguia funcionar direito. Não conseguia manter um emprego. Acabei perdendo minhas esposa . Ela foi embora. Eu vivia como um suicida, eu me colocava em todo tipo de situação e esperava que o filho da puta do outro lado puxasse o gatilho.”

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Hoje Luis é casado com Alisha, que também trabalha na Homeboy, onde eles se conheceram. Ambos vivem com a filha dela. Ele raramente vê seus próprios filhos, que hoje têm 17, 18 e 19 anos e moram em Tucson. “Sou amargo, queria ser parte da vida deles. Todo dia é uma luta assim, sabe?”

Ecoando a teoria de Leap sobre lealdade, Luis afirmou entender por que as pessoas se sentem traidoras ao remover as tatuagens ligadas ao passado. “Eles não querem deixar isso para trás – querem ficar no mesmo ambiente.” Mas no seu caso, ele diz que há pouca coisa da vida anterior que ele precise ou queira se lembrar.

“Ninguém me forçou a vir aqui”, ele contou sobre a Homeboy. “As pessoas precisam querer vir para cá para que isso funcione. Às vezes volto para o meu antigo bairro, e eles ainda dizem as mesmas merdas, bebem, usam drogas. Ainda reclamam das mesmas coisas. Vejo esses caras que estavam na gangue comigo, e prefiro ir a um abrigo a voltar para isso.”

De volta à sala de espera, a enfermeira chamou Luis para a sala de remoção, iluminada por uma enorme janela. Ele tirou a camiseta, expondo uma paisagem de safári tipo Livro da Selva, com tigres, leões e grama alta, estampada em suas costas. Ele se virou para mostrar o que queria remover: “ELA13”, escrito na barriga, uma lembrança de sua antiga gangue. Um amigo fez a tatuagem para Luis em casa, quando ele tinha 15 anos, mas ela parece bem profissional.

Luis, em silêncio e branco do pescoço para cima, se segurou na barra acima da cabeça do médico.

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“Vamos fazer um teste”, propôs o doutor, segurando o laser sobre a barriga do Luis. “Um, dois e…”, e ouvimos o laser, fazendo um som longo de ratátátá, como bombinhas.

O médico levou menos de dois minutos para passar o laser sobre a tatuagem. Uma das enfermeiras que assistia de lado murmurou com admiração: “Ele não se mexe. Não reclama”. Então a sessão acabou, e o velho Luis voltou imediatamente.

“Isso é laquê?”, ele brincou, enquanto uma das enfermeiras passava spray de protetor solar sobre sua tatuagem. Quando fomos embora, o prédio já estava vazio. O dia tinha quase terminado para todos os outros funcionários da Homeboy – menos para o Luis, que teve que ficar para trancar tudo por volta das nove da noite.

Ele levantou a camiseta para me mostrar os resultados do tratamento. A escrita mal tinha se apagado, mas a pele em volta das letras estava como que queimada, rosa como esmalte de unha.

“Vai levar muito tempo para me livrar dessa. Provavelmente um ano. Vou voltar daqui umas duas semanas.”

“O que você vai fazer no lugar dela?”, perguntou um amigo dele que também trabalha na Homeboy, enquanto se curvava para ver a tatuagem mais de perto.

Frijoles”, respondeu Luis.

Via: Vice

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